Há uma peça de teatro de um grande autor português (António Patrício, muito pouco divulgado, infelizmente) cujo título é O FIM. O enredo situa-se em volta da tragédia de uma Rainha (D. Maria Pia, mãe de D. Carlos I e avó de D. Luís Filipe) que enlouqueceu devido ao sofrimento e que, depois do assassínio do rei e do seu filho, vagueia pelo palácio, rodeada apenas por um ministro e um duque, os únicos que se lhe mantêm fieis.
Patrício usa este enredo como alegoria do fim da monarquia e da nação, que agoniza. E é neste contexto que surge, na acção da peça, a “invasão de Lisboa por uma esquadra estrangeira” – os ingleses e não só – porque o país está de rastos, os credores internacionais querem reaver o seu dinheiro, o poder máximo da nação não existe já. Quase não existimos.
Porém, sobre os escombros da nação, enquanto a esquadra estrangeira bombardeia a capital, e há mortos e destruição por todo o lado, surge uma figura, o “Desconhecido” que aparece no palácio real, em chamas, e que chama o povo a lutar contra o invasor. A rainha, agonizante, termina a sua fala a dizer: “Tenho fome…”.
A peça, datada de 1909, é vista como essa alegoria de O FIM não só da monarquia (e o surgimento da regime republicano, que está à porta) mas também como o retrato persistente de luto de uma nação sempre ameaçada pela possibilidade de extinção.
É nesse sentido que apontam as palavras de António Patrício quando diz, numa visão dura, pessimista:
“Portugal é um navio naufragado em que a tripulação espera há séculos…“
Guerra Junqueiro, no prefácio do seu longo poema Pátria, vem basicamente no mesmo sentido, clamando contra o definhamento e provável morte da nação, devido à acção destruidora, inconsequente, sem visão, mas intencionalmente maléfica… de governantes e os poderosos da burguesia endinheirada, perante a grande maioria do país, ou seja, um povo inculto, escravizado, imbecilizado, que vegeta sem saber o que se passa e o que fazer, sem capacidade de se indignar e de reagir, que assiste vergado, impotente perante a sua própria miséria e morte… em vida.
Ao longo destes anos ditos de Nova República (ainda bem que foi conseguida!) foram muitas as vezes em que me vieram à memória estas duas obras – a de Patrício e a de Junqueiro – as quais tive o prazer de conhecer e trabalhar, quando andei, felizmente, pelo teatro amador. É que, ciclicamente, o cenário acaba por se repetir, ou melhor, quase não saímos dele – Portugal persiste neste abismo permanente, neste prenúncio de morte, quando tantas capacidades e virtudes nós temos que auguravam presentes e futuros menos difíceis, menos penosos e humilhantes.
E, sempre, porque nos falta a direcção e o sentido, depois de sabermos, primeiro, o que somos, o que podemos, o que temos a fazer dentro do que podemos, o que temos a fazer para alcançar o que ainda não podemos, mas é indispensável alcançar.
E, sempre também, porque não conseguimos homens e mulheres de qualidade, de saber, de querer… para poderem estar ao leme dos nossos destinos, com honestidade, valor humano e cívico, com sentido e assunção de país, de nação.
E, sempre, ainda, porque não conseguimos, enquanto povo, aprender, integrar, assumir, praticar… uma visão e acção de exigência, de indignação, por cada um de nós, verdadeiramente política – no sentido em que cada pessoa tem o direito/dever de intervir politicamente na defesa dos seus interesses e dos interesses comuns. Ao invés, deixamo-nos nas mãos de quem, afinal, não merecia essa confiança, e nos conduz, como nos últimos trinta anos, para a deriva, para o abismo.
Agora vieram, com caras de santos, os que, há alguns anos, liquidaram a agricultura, a exploração mineira, as pescas… e nos encheram de betão, de ilusões, de aumentos de vencimentos à beira de eleições… vieram com as medidas arrasadoras, de luto, que eles próprios ajudaram a criar. Vieram com caras de anjo, falando do inevitável, pondo a razão do garrote na política destruidora de outros caras de anjo que estiveram lá anteriormente, e que fizeram exactamente o mesmo. Todos nos enganaram. Todos nos podemos sentir traídos, vexados, humilhados, ofendidos.
Uns e outros governaram-nos durante todos estes anos. Que caminho nos apontaram? Onde nos conduziram? Onde estamos?
Um sentimento de luto – é o que hoje sinto que vivemos. Luto que vem sendo preparado, há anos, nas nossas barbas, com a nossa complacência. Com o nosso silêncio. Com as nossas perdas e, logicamente com os ganhos de alguns – uma meia dúzia.
Então, que faço eu aqui? Que fazemos nós aqui?
Nada pode ser como dantes. E nós, cada um de nós, aqueles que não fazemos parte desses grupos de caras de anjo malfeitores, nem queremos fazer parte dos seus grupos de seguidores arregimentados para políticas de luto e morte… nós não podemos continuar como dantes, a assistir a este ultraje, a esta vilania, como cordeiros.
Sejamos democratas, cidadãos livres e activos! Queiramos um país novo, melhor, honesto, digno, inteiro!… Temos muitas razões para o fazer, e muitos locais onde intervir, politicamente, nesse sentido, na defesa dos nossos interesses individuais e colectivos, enquanto sociedade, enquanto país. Não o fazer é continuar a aprofundar a nossa decadência. É caminhar para a miséria permanente, para O FIM…
Manuel
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