O FIM DE PORTUGAL?… OU NÃO?…

Há uma peça de teatro de um grande autor português (António Patrício, muito pouco divulgado, infelizmente) cujo título é O FIM. O enredo situa-se em volta da tragédia de uma Rainha (D. Maria Pia, mãe de D. Carlos I e avó de D. Luís Filipe) que enlouqueceu devido ao sofrimento e que, depois do assassínio do rei e do seu filho, vagueia pelo palácio, rodeada apenas por um ministro e um duque, os únicos que se lhe mantêm fieis.

Patrício usa este enredo como alegoria do fim da monarquia e da nação, que agoniza. E é neste contexto que surge, na acção da peça, a “invasão de Lisboa por uma esquadra estrangeira” – os ingleses e não só – porque o país está de rastos, os credores internacionais querem reaver o seu dinheiro, o poder máximo da nação não existe já. Quase não existimos.

Porém, sobre os escombros da nação, enquanto a esquadra estrangeira bombardeia a capital, e há mortos e destruição por todo o lado, surge uma figura, o “Desconhecido” que aparece no palácio real, em chamas, e que chama o povo a lutar contra o invasor. A rainha, agonizante, termina a sua fala a dizer: “Tenho fome…”.

A peça, datada de 1909, é vista como essa alegoria de O FIM não só da monarquia (e o surgimento da regime republicano, que está à porta) mas também como o retrato persistente de luto de uma nação sempre ameaçada pela possibilidade de extinção.

É nesse sentido que apontam as palavras de António Patrício quando diz, numa visão dura, pessimista

Portugal é um navio naufragado em que a tripulação espera há séculos…

Guerra Junqueiro, no prefácio do seu longo poema Pátria, vem basicamente no mesmo sentido, clamando contra o definhamento e provável morte da nação, devido à acção destruidora, inconsequente, sem visão, mas intencionalmente maléfica… de governantes e os poderosos da burguesia endinheirada, perante a grande maioria do país, ou seja, um povo inculto, escravizado, imbecilizado, que vegeta sem saber o que se passa e o que fazer, sem capacidade de se indignar e de reagir, que assiste vergado, impotente perante a sua própria miséria e morte… em vida.

Ao longo destes anos ditos de Nova República (ainda bem que foi conseguida!) foram muitas as vezes em que me vieram à memória estas duas obras – a de Patrício e a de Junqueiro – as quais tive o prazer de conhecer e trabalhar, quando andei, felizmente, pelo teatro amador. É que, ciclicamente, o cenário acaba por se repetir, ou melhor, quase não saímos dele – Portugal persiste neste abismo permanente, neste prenúncio de morte, quando tantas capacidades e virtudes nós temos que auguravam presentes e futuros menos difíceis, menos penosos e humilhantes.

E, sempre, porque nos falta a direcção e o sentido, depois de sabermos, primeiro, o que somos, o que podemos, o que temos a fazer dentro do que podemos, o que temos a fazer para alcançar o que ainda não podemos, mas é indispensável alcançar.

E, sempre também, porque não conseguimos homens e mulheres de qualidade, de saber, de querer… para poderem estar ao leme dos nossos destinos, com honestidade, valor humano e cívico, com sentido e assunção de país, de nação.

E, sempre, ainda, porque não conseguimos, enquanto povo, aprender, integrar, assumir, praticar… uma visão e acção de exigência, de indignação, por cada um de nós, verdadeiramente política – no sentido em que cada pessoa tem o direito/dever de intervir politicamente na defesa dos seus interesses e dos interesses comuns. Ao invés, deixamo-nos nas mãos de quem, afinal, não merecia essa confiança, e nos conduz, como nos últimos trinta anos, para a deriva, para o abismo.

Agora vieram, com caras de santos, os que, há alguns anos, liquidaram a agricultura, a exploração mineira, as pescas… e nos encheram de betão, de ilusões, de aumentos de vencimentos à beira de eleições… vieram com as medidas arrasadoras, de luto, que eles próprios ajudaram a criar. Vieram com caras de anjo, falando do inevitável, pondo a razão do garrote na política destruidora de outros caras de anjo que estiveram lá anteriormente, e que fizeram exactamente o mesmo. Todos nos enganaram. Todos nos podemos sentir traídos, vexados, humilhados, ofendidos.

Uns e outros governaram-nos durante todos estes anos. Que caminho nos apontaram? Onde nos conduziram? Onde estamos?

Um sentimento de luto – é o que hoje sinto que vivemos. Luto que vem sendo preparado, há anos, nas nossas barbas, com a nossa complacência. Com o nosso silêncio. Com as nossas perdas e, logicamente com os ganhos de alguns – uma meia dúzia.

Então, que faço eu aqui? Que fazemos nós aqui?

Nada pode ser como dantes. E nós, cada um de nós, aqueles que não fazemos parte desses grupos de caras de anjo malfeitores, nem queremos fazer parte dos seus grupos de seguidores arregimentados para políticas de luto e morte… nós não podemos continuar como dantes, a assistir a este ultraje, a esta vilania, como cordeiros.

Sejamos democratas, cidadãos livres e activos! Queiramos um país novo, melhor, honesto, digno, inteiro!… Temos muitas razões para o fazer, e muitos locais onde intervir, politicamente, nesse sentido, na defesa dos nossos interesses individuais e colectivos, enquanto sociedade, enquanto país. Não o fazer é continuar a aprofundar a nossa decadência. É caminhar para a miséria permanente, para O FIM…

Manuel

Publicado em Política | Tags | 1 Comentário

NOVA MAIORIA ABSOLUTA NA MADEIRA… POIS ENTÃO!…

Não foi a maioria absoluta do costume, mas ainda foi maioria absoluta. Tratou-se do possível, depois de ter sido descoberta a monstruosidade do buraco que, aos poucos, foi crescendo, crescendo, a ponto de ultrapassar os 6 mil milhões de euros, porém será bem acima disso quando tudo estiver apurado.

Maioria absoluta que contou com a descarada conivência do governo, que só depois das eleições vai dizer o que os madeirenses vão ter pela frente quanto a sacrifícios. A somar a isso, as palavras cuidadosas do presidente da República, não fosse Jardim melindrar-se e, desta vez, viesse a proibir o senhor Silva de poisar na Madeira no futuro. 

Foram anos e anos de cedências ao ditador da Madeira, da parte de todos os primeiros ministros e presidentes da República. O malcriado, ordinário, intragável, violento e trapaceiro dirigente do PSD (que até tem lugar no conselho de Estado) foi sempre instalando ódios contra ”aquela gentinha de Lisboa”, ao mesmo tempo que ia garantindo de Lisboa os apoios que lhe permitiam favorecer aqui, influenciar acolá, negociar além, chantagear, perseguir… de modo a ter na mão os madeirenses, nos momentos do voto e não só, elevando-se ele ao papel de grande obreiro, de invencível, perante quem os inimigos (os de Lisboa e do continente em geral) sempre iriam perder. 

Ainda agora, na campanha eleitoral que decorreu, esta figura grotesca e paranóica atirou as mais graves e inflamadas palavras de ofensa, crítica ridícula e ódio contra os governantes e os portugueses do continente, de modo a segurar os madeirenses para o apoio ao PSD/Madeira, para ganhar votos. E conseguiu. Não tanto como queria, mas conseguiu.

Isto pode acontecer. Tem acontecido na Madeira, anos e anos a fio. Mas também já aconteceu no Continente. Vejam-se os casos de Gondomar (Valentim Loureiro), Oeiras (Isaltino Morais), Felgueiras (Fátima Felgueiras). Quer dizer, para muitos (que depois vão votar) pouco lhes interessa que haja indícios de fraudes ou fraudes declaradas. O que lhes interessa é se, de forma directa ou indirecta, puderam beneficiar algo com isso. E por isso entendem que é preferível manter o apoio a quem se põe de fora da lei, ainda que faça questão de afirmar que tem obra feita. A continuar assim, onde chagaríamos?…

Há países corruptos, porque assentam a sua economia em negócios ilícitos, completamente contrários a todas as leis que regem as relações entre pessoas e estados. Deles se fala com frequência. Porém, por uma razão ou por outra, eles continuam a existir como tal. Mesmo que haja movimentos contrários no seu interior, toda a mudança leva muito tempo, é difícil, por vezes impossível.

 Ora, aqui, com algumas diferenças, o que se verifica é, no essencial, o mesmo. Em particular na Madeira, as práticas condenáveis a que se dedicaram Jardim e o seu governo, ao longo de anos e sobretudo nos tempos mais recentes, acabaram por não ter consequências negativas significativas, pois recolheram um acolhimento favorável, que se traduziu numa vitória eleitoral que lhes deu uma nova maioria absoluta.

Só se pode espantar quem não acredita na capacidade mobilizadora da manipulação, da mentira, da chantagem, do medo de dizer não e de sofrer com as consequências, numa ilha (e este pormenor não é menos importante) onde um homem e os seus sequazes tudo têm dominado, controlando, até com represálias e perseguições, quem se mostra dissonante e o assume.

Além disso, esta nova maioria absoluta mostra ainda quanto de negativo o PS de Sócrates fez à luta política e ao país, pois não só não surgiu como alternativa na Madeira, de tão desnorteado e sem chama que anda (teve uma claríssima e histórica derrota) como serviu de argumento a Jardim, dando-lhe um suporte óptimo para a manipulação que é seu costume, suporte que pôde usar para dizer que a origem da cratera era culpa de outros. 

Em breve se saberá como irá Jardim posicionar-se perante o governo da República, sendo de esperar que mantenha a mesma ordinarice e malcriadez, elegendo inimigos e mobilizando os madeirenses para que o sigam nessa postura, como aliás já começou a fazer hoje, ao apontar espingardas para os ministros das Finanças e da Justiça, além de se atirar à Assembleia da República.

Por quanto tempo mais os madeirenses irão dar cobertura a políticos e práticas que nos apoucam e envergonham, mais parecendo que estamos num  país pré-democrático?

Publicado em Política | Tags | Deixe o seu comentário

ANGOLA – CORRUPÇÃO, SAQUE, REPRESSÃO… E A VIDA DE RAFAEL MARQUES EM PERIGO

Há anos que se fala no assunto. Vários relatos vieram a público, algumas instituições internacionais têm vindo a alertar o mundo para o que lá se passa.

Rafael Marques, angolano, jornalista, corajoso, tem sido uma das principais vozes a trazer ao de cima, com dados muito objectivos, o ambiente de corrupção geral, de nepotismo, de usurpação e saque que se vive em Angola.

O poder institucionalizado, governamental e militar, desde o mais altíssimo nível, sempre foi visto como usurpador, transferindo para seu proveito altos rendimentos dos bens de Angola, em especial o que provém dos diamantes e do petróleo. Uma nova oligarquia, tendo por base os membros do poder, criou uma rede de clientelismo controlado, onde os interesses rapaces de uma “casta” se sobrepõem aos interesses gerais de Angola e do seu povo.

Entretanto, interesses externos foram-se instalando, desde indivíduos até grupos e empresas, atraídos pelo ambiente do negócio fácil e muito lucrativo, mesmo que seja necessário entrar na corrupção de uma série de membros da administração pública angolana, dos governantes ou dos caciques que possam pôr entraves ao negócio. E aí contar-se-ão muitas “personalidades” portuguesas do mais alto nível do mundo dos negócios, da construção civil, enfim, o costume.

O poder político, governamental e policial de Angola tem fama de não permitir que a verdade se saiba, reprimindo até ao limite os que tentem, de modo consequente, levar por diante essa luta.

É neste quadro que muitos têm visto a morte de um jornalista há anos, o qual havia decidido dizer ao mundo o que se passava em Angola.

As perseguições violentas a todos os que têm tentado manifestar o seu descontentamento nas ruas de Luanda, como aconteceu recentemente, são também prova do que ali pode esperar-se. Rafael Marques, que se tem batido com grande coragem contra esta situação, tem ele próprio sido objecto de acções de perseguição, prisão e violência psicológica. 

Passou ontem, sexta-feira, uma entrevista de Rafael Marques na SIC, a propósito do lançamento do seu livro “DIAMANTES DE SANGUE”, cuja leitura se sugere. Parece ser importante para esclarecer o que será este mundo de usurpação, saque e de atentado aos direitos humanos, pelos poderes de Angola e seus afilhados, com a participação de gente de altos interesses políticos e económicos de muitos países, e onde Portugal terá uma quota-parte relevante de personagens - sacar enquanto for possível parece ser o lema, numa nova versão de colonialismo, com o povo angolano a ser novamente escravizado.

Haverá empresários e profissionais portugueses com investimentos em Angola que estejam, tão só, a investir ali como o fariam em qualquer outro lugar, legalmente e com boas intenções? Claro que haverá. Porém, em tal ambiente, os que têm e usam este poder hão-de querer arranjar forma de conduzir todos os interessados aos mesmos procedimentos, em seu proveito. É comum dizer-se que, lá, é preciso untar bem as mãos de muitos membros dos poderes, aos diversos níveis.

O desafio é enorme. Rafael Marques, com a sua persistente e justa denúncia deste quadro de corrupção, saque e repressão no seu próprio país, é um corajoso combatente pela verdade e pela liberdade.

Rafael Marques merece a nossa adimiração, respeito e solidariedade. Quanto mais o fizermos, de forma activa e continuada, mais o defenderemos perante prováveis consequências nefastas que a sua atitude (legítima, cívica, humanista, além de profissional) por certo não demorará a desencadear da parte dos grandes senhores de Angola. Aqueles que, é voz corrente, usam as riquezas nacionais em seu próprio proveito, constituíndo impérios pessoais no mundo, alguns dos quais em Portugal, com a conivência dos nossos próprios governantes, ao longo de anos.

Rafael Marques, jornalista angolano, autor de "Diamantes de Sangue"

Publicado em Angola | Tags , , , , | Deixe o seu comentário

JARDIM E SEUS SEQUAZES AFUNDAM MADEIRA

Anos e anos de chantagem política, com os governantes do país a renderem-se escandalosamente à manipulação e mentira do caceteiro Jardim e seus apaniguados. Cavaco, Guterres, Durão, Sócrates… todos a meterem a cabeça na areia, enquanto o homem ia construindo as suas maiorias absolutas à custa do endividamento da Região, como se uma fonte inesgotável e um país de papalvos pudessem estar a aguentar desmandos desta natureza. Até que…

Vieram de fora os que, já em última instância quanto ao país todo, disseram que não tínhamos futuro se não arrepiássemos caminho. O país, onde tudo foi feito quase sempre ao contrário do que devia ser, pelos que governaram e pelos que disso mais beneficiaram, ficou incapaz, caloteiro, envergonhado, menor. Enquanto, como se sabe, escândalos, promiscuidades, desvios, protegidos… enfim, um sem-número de práticas ética e legalmente condenáveis atravessavam todos os governos, sob a complacência de uma opinião pública inexistente, uma justiça colaborante, uma oposição política frouxa, sem capacidade para mobilizar profundos, consequentes e duradouros movimentos de revolta social. Pagaram, estão a pagar, vão continuar a pagar… os mesmos do costume. Os que sempre mais sofreram e aqueles que ainda vinham tendo algum amealhado – agora é um sem-parar de impostos, dificuldades, desemprego, fome. Os que ganharam, os mesmos de sempre, e vão continuar a ganhar, já há muito que puseram os seus bens a salvo, e vão continuar a mamar na teta do sistema.

Agora, contas que foram escondidas, mesmo do Banco de Portugal e do INE, vêm à baila. Pela acção dos da troika. É triste, mas foi preciso virem os de fora. A Madeira, onde reina Jardim, a caminho do naufrágio completo. O homem e seus sequazes conseguiram manter paralela uma contabilidade que já aponta para mais de mil seiscentos e oitenta milhões de dívidas em contas ocultas, valor que se diz será ainda maior depois de se fazer o apuramento completo.

Uma vergonha. Um crime. Que mais nos afunda, como país. Não só nas contas mas… em tudo. Uma miséria. Que precisa de resposta, que exige apuramento e punição.

Chegámos já ao fundo? Ou haverá ainda um limite inferior a este, ao qual vamos ser atirados por esta gente que nos governa? E que fazer? Ficar de braços cruzados, a remoer este destino? Não pode ser!

Manuel

Publicado em Política | Tags , | Deixe o seu comentário

PORTAS DO SOL, OU O DESERTO EM SANTARÉM

Deixa-me ir até às Portas do Sol, que há muito lá não vou. Isto foi o que eu disse, achando-me na Rua Direita, a tratar de uns assuntos. E lá fui. Pelo caminho, a Praça Visconde Serra do Pilar, onde fiz o curso comercial na escola técnica que lá houve. Depois, detive-me a olhar o incendiado Teatro Rosa Damasceno, um crime que ali permanece, que nos dói, que nos ofende. Crime pelo incêndio, provocado ou não é coisa que nunca se terá apurado. Crime, porque passam anos e anos e continua por resolver o futuro daquilo, um património histórico e cultural da cidade, que bem merecia uma recuperação que mantivesse o espaço ao serviço da comunidade. Mas, pelos vistos, não tem havido interesse dos diversos poderes com intervenção possível na situação, nem movimentos de acção cívica dos santarenos e vizinhos para pugnarem em tal sentido. Ou estarei enganado?

Bom, mas… as Portas do Sol. Passava das duas da tarde. À direita, antes da entrada, uma edificação recente, com rampa para facilitar o acesso a qualquer visitante. Muito bem. Lá dentro, sob a cobertura, o que resta, segundo depreendi, de habitações muito antigas. Porém, nenhuma informação. Fiquei sem saber do que se trata. Será que há uma placa? Onde? 

Segui para o jardim. À direita ainda, um espaço de restauração, de onde saía música de forte tum-tum-tum-tum!… Depois… começa uma pessoa a caminhar no que outrora foi um jardim frondoso, com espaços diversificados de passeio e de estar, e que vê?… Um quase descampado, sob a torreira do sol, especialmente forte àquela hora. Das grandes árvores restam, somente, alguns (poucos) resistentes plátanos, sobretudo na zona de miradouro, junto às muralhas de onde se pode contemplar o Tejo e a velha ponte, agora recuperada.

Olhando com mais atenção, surpreende-me o facto de haver bancos que não têm qualquer sombra protectora. Por exemplo, em volta da estátua do Soldado Desconhecido, há nada menos de nove, porém quase todos sem árvores próximas. Contando, chega-se à conclusão de que muito mais de metade dos bancos (bastantes, diga-se) estão sem qualquer protecção.

Mas há coisas positivas naquele espaço, fruto do trabalho que foi feito? Claro que há. Por exemplo, passou a haver um parque infantil, dando às crianças um local próprio para as suas brincadeiras, o que também promove a sua ligação com o jardim. Há também um espaço de biblioteca. Por outro lado, a possibilidade de os visitantes verem os vestígios das habitações antigas (suponho que seja isso, apesar da falta de informação) é mais um factor de interesse.

No entanto, em conclusão, e sem saudosismos, esta remodelação do jardim das Portas do Sol deixa-me insatisfeito. A vista da lezíria, soberba, é a mesma. Apesar de as águas do Tejo serem agora muito mais escuras (a poluição que por ali há-de ir…) os campos de sempre lá estão, com Almeirim, Alpiarça, outras terras, no horizonte. Um panorama único. Mas no jardim, com aquele calor, e sem sombras, o que mais me impressionou foi a desprotecção que o visitante sente face à inclemência do sol. Por isso, as poucas pessoas que por ali andavam, encostavam-se ao longo das muralhas. Com tal calor e sem sombras, que mais podiam fazer?…

Manuel

Teatro Rosa Damasceno - uma dor d'alma

Vestígios de tempos muito antigos, mas... onde está a informação?

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Sol intenso, calor, mas... bancos à torreira

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Magnífica vista, porém vão bem escuras as águas do Tejo

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Publicado em Santarém | Tags , , | 2 Comentários

NA SEMANA EM QUE PARTIU VITOR ALVES, CAPITÃO DE ABRIL

Com o maior respeito e a devida vénia, faço minhas as palavras do autor do Blog “O JUMENTO”, que de forma tão apropriada nos escreve sobre a miséria moral em que vivemos, aqui, em Portugal do desnorte e da crise, e também da falta de memória e de respeito por pessoas e valores que importa relevar e praticar, em vez da náusea a que chegámos, como o Autor diz, e bem, a seguir.

“NAUSEAS

Na mesma semana em que foi assassinado um cronista social, faleceu um capitão de Abril, ao primeiro a comunicação social dedica horas, ao segundo dedicou minutos, para o primeiro são ouvidas dezenas de «personalidades», do segundo nada se diz, do primeiro até temos de saber por onde vão ser distribuídas as cinzas, do segundo soube-se que o corpo esteve algures em câmara ardente, do primeiro traça-se um perfil de grande lutador pelas liberdades, do segundo pouco mais se diz que era um oficial na reserva.

A forma como a comunicação social tem tratado o homicídio de um mero cronista social tem sido, no mínimo, abusiva, são jornalistas, astrólogos, parapsicólogos e uma verdadeira procissão de personagens de um jet set rasca e, no meio, usa-se e abusa-se das imagens, onde se vê o cronista a entregar um ramo de flores a Maria Barroso, imagens que já vi serem repetidas quase uma dúzia de vezes.

A forma trágica como terminou aquilo que o cronista descreveu aos amigos que iria ser uma lua-de-mel, é apresentada por astrólogas, parapsicólogos e outros especialistas deste ramo, como uma bela história de amor, um misto de um episódio do Morangos com Açúcar, com o Romeu e Julieta. Chegamos ao ridículo de ver as astrólogas e parapsicólogos a tentarem demonstrar a culpa do jovem homicida, exibindo e-mails e insinuando que este teria conquistado com palavras o distraído apaixonado, dando a entender que como noutros tempos, o enganou.

E anda este país, com problemas gravíssimos, distraído com um episódio sórdido da lumpen-burguesia deste nosso jet set miserável, como uma pequena seita de gente que se auto-elege como bonita, vive de pequenos luxos obtidos à custa de papalvos, um meio onde se promovem personagens patéticas e decadentes a grandes figuras nacionais, onde autarcas financiam discotecas de astrólogas ou ajeitam as contas de idiotas, convidando-os para reis do Carnaval.

Todo este espectáculo mórbido, que só serviu para os portugueses saberem um pouco mais sobre se fazem e desfazem as paixões conseguidas com trocas de favores, começa a provocar-me náusea, já me custa assistir a um telejornal ou abrir as páginas dos jornais, enoja-me que estes jornalistas me queiram fazer pensar que os grandes problemas do país é como acabam as paixões dos nossos socialites, os sítios que querem poluir com as suas cinzas, ou os sms que trocaram com os seus engates.

Lá que insistam em dizer que crónica social é saber com quem namora uma qualquer Lili decrépita e decadente é uma coisa, agora que a sociedade portuguesa é o pequeno mundo dessa pobre gente é outra coisa. O país tem muito mais com que se preocupar, que com os engates de modelos, com as trocas de sms, com paixões à primeira vista entre jornalistas de 65 anos e modelos de 20. Chega, começo a sentir náuseas.

In O Jumento”

OBRIGADO E PARABÉNS PARA O AUTOR

Manuel

Publicado em Comunicação Social | Tags | Deixe o seu comentário

2011 – O BORDA D’ÁGUA DIZ QUE É UM ANO FEIO

Da crise, cá dentro, que tem a ver essencialmente com o que cá dentro se fez e não se fez (não só recentemente, mas décadas sobre décadas) tudo isso potenciado, acelerado… pelo que veio de fora… da crise dizem-nos que… o ano em que entrámos há uns dias vai ser terrível.

Mais terrível, está bom de ver, para os que pouco ou nada tinham e têm, para os que se endividaram e agora não sabem para onde se virar, já ou a caminho de serem desapossados dos bens, como quem vê ruir castelos de areia…

Mais terrível para os que se vêem impotentes, as empresas a falirem, ou a fingir que o fazem, e eles na rua, sem trabalho, sem dinheiro, entregues ao desemprego, o futuro… um enorme ponto de interrogação.

Mais terrível para… milhares, milhares e milhares, o País à beira da entrada do FMI, e os políticos (que tristeza!…) naquela luta de.. os culpados são vocês, mais a crise de fora, mais a Merkl, ou os chineses, mais o petróleo que sobe, o juro que sobe, as agências de rating que… enfim, a mediocridade das desculpas do costume, esquecendo o cerne desta atávica incapacidade de Portugal – dos Portugueses! – de se pensarem a si mesmos como gente capaz de agarrar em si mesma, enfrentar as dificuldades e lutar para vencê-las, pouco a pouco, para um dia deixar de andar na penúria, deixar de andar na pedinchice, ou na lamúria, ou na amargura… sem norte.  

A esperança é a última coisa a morrer. Assim seja! Porém, só de esperança não se vive. É preciso algo, de muito importante, que sustente o direito à esperança. Projecto para este País. Um sentido, objectivos, planos e programas, mobilização consciente dos cidadãos. E acções. Ah, e um estado de direito. E a justiça a funcionar. A sério. E a educação e formação das pessoas no centro do desenvolvimento das competências sociais e profissionais. E critérios de mérito e não as cunhas, os compadrios, os amiguismos e a eterna e maléfica capilaridade política a valerem sobre todos os valores e critérios honestos e idóneos.

Diz o Borda D’Água que 2011 entrou sob o signo de Saturno, um planeta de movimento lento que leva cerca de 30 anos para completar a sua órbita. Sou, desde criança, um leitor interessado do Borda d’Água, e não pude deixar de ligar o Juízo do Ano, que aparece na última página do alamanaque, àquilo que se passa no nosso País.

É claro que o almanaque é o que é. Não pode ver-se no que diz uma verdade ou premonição para o País. E não faz sentido acreditar que os astros (neste caso o planeta Saturno) possam ser “responsáveis” por aquilo que é da responsabilidade do ser humano.

Mas quando o Borda d’Água diz que Saturno traz destruição, fome, carestia, inquietação, miséria, angústia e tristeza… somos conduzidos a aceitar que isso se aplica, tal e qual, a Portugal.

Com ou sem as previsões do Borda d’Água, a questão que se põe é a de saber se a gravíssima situação que vivemos vai continuar a abater-se sobre nós durante alguns anos ou se vai acompanhar, durante 30 anos, a trajectória de Saturno. A resposta, obviamente, cabe aos Portugueses. A mim, a si… a todos. Todos Nós!…

Manuel

Publicado em 2011, Borda d'Água | Tags | 5 Comentários